Terceira Pessoa

Preciso confessar uma coisa.

Fui eu.

Guardei este segredo comigo por 2 anos e sinto que não posso mais escondê-lo, é um pensamento que lateja nos meus mais profundos pesadelos, que não me deixa dormir por noites insones a fio, me atormenta a alma e me impede da serenidade de ser.
29 de Março de 2008 era um sábado, eu estava na casa do meu amigo F.C.(seu nome foi oculto por segurança) e nós estavamos jogando Play tranquilamentes, não lembro o jogo, talvez GH ou Soul Calibur, bem, isso não importa, o que aconteceu é que depois de algumas horas nessa rotina nós ficamos terrivelmente entediados, já havia entardecido e tudo o que tinhamos para fazer era ver televisão e comer as sobras do almoço.

Foi aí que, num espasmo de pensamento, como um pit bull que é manso e educado a vida inteira e sem mais nem menos decepa a mão do filho de seu dono, eu tive a ideia macabra: “vamos pregar uma peça”.

No começo apenas espiamos da janela o movimento na rua, com alguns ovos e outras coisas em nossas mãos prontas para serem lançadas. Esperamos alguns poucos minutos e vimos que um carro entrava no prédio, desisti de atirar os ovos porque achei que seria chamativo de mais, e conveci o meu amigo a fazer o mesmo. Falei para ele me seguir, sem alguma ideia clara em mente, e ele o fez, descemos a escada alguns andares até que chegando em um deles ouvimos um barulho de porta se fechando, mas sem ser trancada. Eu dei uma olhadela de soslaio pela entrada da escadaria para não ser visto e vi um homem entrando no elevador. No mesmo momento disse a F.C. “vamos lá, vamos lá, vai ser divertido, nós roubamos alguma comida fresca da geladeira, fuçamos as gavetas depois voltamos”. Foi o que fizemos, entramos, abrimos a geladeira, roubamos um chocolate que estava lá dentro, o que eu detesto, porque tem que esperar derreter senão o gosto não é o mesmo, e eu queria comer naquele momento, isso me deixou meio nervoso na hora, fui então vasculhar os outros cômodos.

Ao entrar em um quarto, vi uma menina dormindo, ela acordou com a minha presença e perguntou “quem é?”, nesse momento eu fiquei completamente desesperado com medo de que ela gritasse e resultasse em um final muito indesejado para mim, e como eu já estava emocionalmente sensibilizado naquele momento, por impulso tomei uma decisão com cujas consequências eu nunca sonharia. Peguei o lençol de sua cama e tampei seu rosto para que não gritasse, enquanto a sufacava com minhas mãos em seu pescoço. Notei um machucado em seu rosto, ainda fresco, saindo sangue, e dei-lhe um golpe com todas as minhas forças no local da ferida. Do golpe deferido resultou um pequeno jato de sangue que caiu nos lençóis, e manchou também minhas mãos. A menina estava morta.

Precisava tomar uma atitude imediata. Fui à porta da casa correndo para ver se havia alguém. Não havia. Voltei correndo para dentro e fui ao banheiro para lavar minhas mãos, depois peguei uma quantidade enorme de papel higiênico e voltei para o quarto para limpar o sangue que caiu no chão, enquanto F.C. continuava se esbaldando na cozinha. Fui à porta para limpar o sangue que havia caído pela casa sem que o F.C. percebesse, guardei os papéis sujos no bolso e vasculhei as gavetas da cozinha. Achei uma tesoura e fui logo ao quarto onde a menina estava. No momento não havia outra escolha para mim, abri a janela, cortei a rede de segurança e cuidadosamente defenestrei o corpo ainda quente da pequena garota, como se estivesse jogando todos os meus problemas pela janela.

Voltei logo para chamar o F.C. para sair de lá, ele me olhou assustado e dirigiu-se para a porta, eu apenas deixei a tesoura na cozinha e sai correndo daquela casa.

Saí do Edifício London na Rua Leocádia antes da meia-noite e voltei para minha casa.

Depois daquele dia nunca mais falei com o F.C., não o procurei nem o contrário aconteceu.

Se isso tem alguma relação com o crime de repercução nacional que levou duas pessoas a serem condenadas na noite de ontem, não posso dar-lhes certeza, pois não lembro exatamente o andar nem a cara da criança para reconhecê-la, mas enfim, eu precisava dizer isso para evaporar o peso da minha consciência.

O Honestino não gosta de chocolate na geladeira.

2 Respostas para “Terceira Pessoa”


  1. 1 lordmanshoon 27 de março de 2010 às 10:54

    Ninguém gosta de chocolate na geladeira. Ninguém pode gostar disso…

  2. 2 h4z3 28 de março de 2010 às 18:15

    aff que absurdo!
    chocolate na geladeira nao rola ne


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